Para colegas médicos


A cirurgia corre bem. A volta à vida de antes é que costuma demorar.

O Programa ALICERCE: uma proposta de parceria bem delimitada para quem opera ou acompanha pacientes idosos, antes, durante e depois da cirurgia. Esta página é a carta que a Dra. Claudia envia aos colegas, na íntegra.

Colega, eu acompanho o paciente idoso nos três momentos: antes da sua cirurgia, durante a internação e depois dela, até a recuperação estar completa. A indicação, a técnica e o seguimento cirúrgico seguem inteiramente com você, e o paciente continua seu, do começo ao fim.

O que eu acrescento é a camada clínica e funcional que costuma sobrar sem dono: o manejo de infecção, de dor e da medicação inteira, o acolhimento da família, e um relatório meu em cada etapa.

Ver os três momentos
Dra. Claudia Cogo sentada em seu consultório

Por especialidade


O que o ALICERCE resolve, com a evidência de cada um

Se você éPré-operatórioPós-operatórioEvidência
Cirurgia geral e do aparelho digestivo Correção de desnutrição, sarcopenia e capacidade aeróbica no idoso que vai para ressecção. Recuperação alimentar, reconstrução de massa muscular e retomada da marcha, com a família instruída. Barberan-Garcia, Ann Surg 2018Ensaio randomizado, 125 pacientes de alto risco (mais de 70 anos e/ou ASA III-IV) em cirurgia abdominal maior eletiva: prehabilitação reduziu em 51% a proporção de pacientes com complicação (RR 0,5 · IC 0,3 a 0,8).
Ortopedia e traumatologia Na fratura, avaliação da causa da queda, da medicação que aumenta o risco e do estado nutricional. Recuperação de marcha e força medida com instrumento, vitamina D, segurança da casa e prevenção da segunda fratura. Prestmo, Lancet 2015Ensaio randomizado, 397 pacientes com 70 anos ou mais e fratura de quadril: cuidado geriátrico abrangente resultou em melhor mobilidade aos 4 meses pelo SPPB (5,12 contra 4,38 · IC 0,18 a 1,30 · p=0,010).
Cirurgia vascular Otimização pré-operatória completa, com delirium e complicação cardíaca como desfechos. Recuperação de marcha, controle dos fatores clínicos e vigilância do período de maior readmissão. Partridge, Br J Surg 2017Ensaio randomizado, 176 pacientes com 65 anos ou mais: internação de 3,32 contra 5,53 dias (p<0,001), delirium 11% contra 24%, complicação cardíaca 8% contra 27%.
Cirurgia cardíaca e torácica Medida de fragilidade com instrumento validado, correção de albumina, hemoglobina e capacidade funcional. Acompanhamento na terapia intensiva junto à família, e recuperação funcional depois, com atenção à síndrome pós-terapia intensiva. Solomon e Afilalo, J Am Heart Assoc 2021Coorte de 500 pacientes com 60 anos ou mais em revascularização miocárdica: sobrevida em 5 anos de 63% nos frágeis contra 89% nos não frágeis. Os autores apontam reabilitação e otimização nutricional como alvos acionáveis.
Cirurgia oncológica, cabeça e pescoço e ginecologia oncológica Avaliação de fragilidade, nutrição e cognição antes de um tratamento que costuma ter mais etapas pela frente. Manutenção de peso e força durante o restante do tratamento, articulação com fonoaudiologia quando há disfagia, e suporte na UTI quando o pós exige. Disalvo, J Geriatr Oncol 2025Revisão sistemática de 12 ensaios. Ressalva: os ensaios são subdimensionados e nenhum atingiu o desfecho primário. Em análise ajustada, um mostrou OR 0,33 (IC 0,11 a 0,95). Sinal, ainda não prova.
Urologia, ginecologia e gastroenterologia Reserva funcional, nutrição e revisão de medicação antes do procedimento eletivo. Recuperação da autonomia, mobilidade e reconciliação medicamentosa depois. Makary, J Am Coll Surg 2010Não há, até onde conheço, ensaio dedicado a estas especialidades. Vale o dado geral de cirurgia eletiva em idosos: fragilidade prediz complicação em 30 dias (OR 2,54) e alta para instituição (OR 20,48).
Qualquer especialidade, quando o caso vai para a UTI Quando há tempo, otimização da reserva antes de um procedimento de alto risco. Acompanhamento da família durante a internação, com a linguagem da terapia intensiva, e condução da recuperação depois da alta. Pandharipande, N Engl J Med 2013821 pacientes: delirium em 74% durante a internação; aos 3 meses, 40% com cognição 1,5 DP abaixo da média populacional e 26% a 2 DP; aos 12 meses, 34% e 24%.

Onde a UTI aparece com mais frequência: cirurgia cardíaca e torácica, oncológica de grande porte, aorta e vascular maior, hepatobiliar, pancreática e esofágica, cabeça e pescoço extensa, neurocirurgia, ortopedia de grande porte no idoso frágil, e qualquer reoperação ou urgência em paciente com reserva reduzida. Para especialistas clínicos (oncologia, cardiologia, nefrologia, neurologia, endocrinologia e a linha da UTI) existe uma carta própria, com o mesmo desenho: peça pelo WhatsApp do consultório.

Referências

  1. Makary MA, Segev DL, Pronovost PJ, e cols. J Am Coll Surg. 2010;210(6):901-8. doi:10.1016/j.jamcollsurg.2010.01.028
  2. Partridge JSL, Harari D, Martin FC, e cols. Br J Surg. 2017;104(6):679-687. doi:10.1002/bjs.10459
  3. Covinsky KE, Pierluissi E, Johnston CB. JAMA. 2011;306(16):1782-93. doi:10.1001/jama.2011.1556
  4. Barberan-Garcia A, Ubré M, Roca J, e cols. Ann Surg. 2018;267(1):50-56. doi:10.1097/SLA.0000000000002293
  5. Prestmo A, Hagen G, Sletvold O, e cols. Lancet. 2015;385(9978):1623-33. doi:10.1016/S0140-6736(14)62409-0
  6. Solomon J, Moss E, Morin JF, e cols. J Am Heart Assoc. 2021;10(15):e020219. doi:10.1161/JAHA.120.020219
  7. Disalvo D, Garcia MV, Soo WK, e cols. J Geriatr Oncol. 2025;16(3):102197. doi:10.1016/j.jgo.2025.102197
  8. Papadopoulos A, Devries S, Montbriand J, e cols. Can J Surg. 2019;62(6):412-417. doi:10.1503/cjs.010318
  9. Pandharipande PP, Girard TD, Jackson JC, e cols. N Engl J Med. 2013;369(14):1306-16. doi:10.1056/NEJMoa1301372

Quem escreve


Intensivista que se dedicou à recuperação funcional

Sou médica há 17 anos, com residências em Clínica Médica e em Medicina Intensiva, especialista nas duas áreas junto ao CRM-ES (RQE 10497 e RQE 10498), e concluí pós-graduação em Geriatria pelo Hospital Israelita Albert Einstein.

A maior parte da minha trajetória aconteceu dentro da terapia intensiva, e foi ali que este trabalho começou: eu acompanhava o paciente idoso vencer a doença grave e receber alta, e reencontrava a mesma pessoa meses depois sem a força, a marcha e a autonomia que tinha antes de internar. Passei a estudar a recuperação funcional do idoso e hoje me dedico a ela, em consultório, em domicílio e por telemedicina, em Vitória.

O que eu ofereço, no fundo, é respaldo

Você opera sabendo que existe outro médico acompanhando a parte clínica daquele paciente, disponível para a família justamente na semana em que ela mais pergunta, e que devolve tudo para você por escrito. Não é atenção que falta ao cirurgião, é tempo.

Depois de operar um idoso, o cirurgião costuma virar o canal único: ligações, mensagens, áudios de filhos em horários improváveis, e quase nada disso é cirúrgico. Com um médico responsável pela camada clínica, essa conversa acontece comigo, e o que chega até você é o relatório, não a dúvida.

Numa coorte de 3.324 pacientes de cirurgia vascular, 12,7% foram readmitidos em 28 dias; entre as readmissões não programadas, 14,8% tiveram como causa infecções não cirúrgicas (Papadopoulos e cols., Can J Surg, 2019).

Os três momentos


E o relatório de cada um

Você nunca fica sem notícia do paciente que encaminhou.

Antes da cirurgia

Medida objetiva de fragilidade, marcha, força e reserva funcional; estado nutricional e anemia; revisão da polifarmácia com atenção ao que aumenta risco de delirium e queda; rastreio cognitivo; conversa com a família sobre o que esperar do pós.

Você recebe: relatório pré-operatório antes da data, em linguagem de decisão, não em laudo longo.

Durante a internação

Acompanhamento clínico com discussão do caso com o médico assistente, a convite ou com a anuência dele; vigilância e manejo de quadros infecciosos, que no idoso se apresentam sem febre; controle da dor com atenção ao que o opioide faz no idoso; vigilância de delirium, nutrição e mobilização; tradução para a família.

Você recebe: nota de evolução periódica, curta e objetiva, enquanto ele estiver internado.

Depois da alta, até a recuperação completa

Reconciliação medicamentosa item por item; manejo das infecções do pós-alta; controle da dor na retomada da função; recuperação de massa muscular e marcha com meta medida; prevenção da queda e da segunda internação; visita domiciliar quando ele não consegue vir; articulação com fisioterapia, nutrição e fonoaudiologia.

Você recebe: relatório em até sete dias após a consulta e nota de evolução a cada reavaliação, até a alta funcional.

Infecção, dor e medicação: as três frentes em que o idoso operado mais precisa de um clínico por perto.

InfecçãoDiagnóstico e condução dos quadros infecciosos do idoso, que se apresentam sem febre e sem leucocitose e por isso chegam tarde.
DorControle da dor no idoso operado, equilibrando analgesia suficiente para ele andar com o risco de delirium, constipação e queda.
MedicaçãoReconciliação item por item entre a receita de alta e a de casa, e desprescrição do que perdeu indicação.

O que a literatura mostra


Sobre esse paciente

OR 20,5

É a chance de o paciente frágil que morava em casa receber alta para instituição de cuidado, contra o não frágil. A fragilidade também previu complicação em 30 dias e melhorou o poder preditivo dos escores ASA, Lee e Eagle.

Makary e cols. · 594 pacientes · J Am Coll Surg, 2010

8% contra 27%

De complicação cardíaca, a favor do grupo que passou por avaliação geriátrica e otimização antes da cirurgia vascular. Delirium 11% contra 24%, internação média de 3,3 contra 5,5 dias.

Partridge e cols. · ensaio randomizado · Br J Surg, 2017

1 em 3

Pacientes acima de 70 anos desenvolve incapacidade associada à hospitalização, mesmo quando o problema que motivou a internação é resolvido com sucesso.

Covinsky e cols. · JAMA, 2011

Quando o caso eletivo termina na terapia intensiva


É a hora em que o caso deixa de ser cirúrgico

A indicação estava certa, a cirurgia correu como devia, e o paciente idoso acaba na UTI. Dali em diante o problema é clínico, o prognóstico fica incerto, e a família procura justamente você para entender o que está acontecendo.

É aqui que a minha formação serve. Sou intensivista, com residência e RQE em Medicina Intensiva, e tenho trânsito dentro da terapia intensiva: a discussão do caso acontece de médico para médico, sempre a convite ou com a anuência do colega assistente, nunca por cima. E eu fico ao lado da família o tempo inteiro, traduzindo o que está acontecendo e mantendo você informado por escrito. Depois da alta da UTI, eu conduzo a recuperação, que costuma ser longa.

No estudo BRAIN-ICU, com 821 pacientes de UTI, o delirium ocorreu em 74%; três meses após a alta, 40% tinham cognição global 1,5 desvio-padrão abaixo da média populacional (Pandharipande e cols., N Engl J Med, 2013).

Os limites do meu papel, ditos com clareza

  • Indicação cirúrgica não se discute com o paciente nem com a família. Se eu tiver alguma consideração, ela vai para você, por escrito ou por telefone.
  • Nada do seu pós-operatório é alterado sem que eu fale com você antes.
  • Durante a internação, a conduta é do médico assistente. Discuto o caso com ele quando ele abre espaço. Nunca prescrevo por cima de ninguém.
  • O paciente continua seu, e eu deixo isso claro para ele na primeira consulta.
  • Não encaminho o seu paciente para outro cirurgião.

Como funciona, e como me chamar


Uma mensagem com o nome e o telefone basta

O consultório entra em contato com a família. Se houver data de cirurgia, me diga qual e eu encaixo antes. Todo paciente que você me encaminhar volta até você por escrito, em cada uma das três etapas. E eu vou até ele: faço visita domiciliar e atendo por telemedicina quando a conversa resolve.

Colegas que preferem a linha direta com a Dra. Claudia a recebem na carta enviada pessoalmente. E-mail: draclaudiacogo@gmail.com

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